Conselho de Lama Zopa sobre A Causa da Morte – Shiwa Lha – Centro de Estudos do Budismo Tibetano

Conselho de Lama Zopa sobre A Causa da Morte

A causa da morte 

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Lama Zopa Rinpoche aconselha alunos na Mongólia, em setembro de 2023. Crédito: Ven. Thubten Kunsang 

Lama Zopa Rinpoche recebia milhares de cartas todos os anos de pessoas em busca de orientação sobre diversos assuntos. Em 2013, Rinpoche ditou uma carta sobre os três tipos de sofrimento à mãe de um estudante que estava preocupada com a morte. 

Leia a carta completa abaixo: 

A causa da morte 

Data do aconselhamento: agosto de 2013 

Minha querida, 

Como vai você? Na realidade, mesmo que acreditemos que viveremos por muito tempo, que temos tantos anos para viver – tipo 100 anos ou mais, e talvez depois de 100 anos, esperamos por mais cem anos (estou brincando) – na verdade, não há ninguém que tenha vivido que não tenha morrido. Mesmo esta grande Terra terá de perecer depois de outra grande era. Como cada pessoa que nasce neste mundo está sob o controle do carma e da ilusão, não há ninguém, ninguém, desde o início dos seres humanos até agora, que tenha vivido sem morte. Não há ninguém. 

Buda não tem morte, porque não há causa para a morte. A causa da morte não está fora, mas dentro – carma e delusões. Buda os removeu há eras inconcebíveis, porque ele purificou as ilusões e até mesmo os obscurecimentos sutis que interrompem a mente onisciente, de modo que é impossível para o Buda experimentar a morte. Não há, de maneira alguma, velhice, doença e morte para ele, mas Buda mostrou ações sagradas, morrendo em um estado sem sofrimento. Se Buda não mostrasse o aspecto da morte, então não apreciaríamos os seus ensinamentos e nos tornaríamos muito preguiçosos. Buda mostrou a morte para destruir o conceito errado de permanência das nossas vidas, que são impermanentes, e também para nos mostrar que precisamos praticar o Dharma devido ao sofrimento e à causa do sofrimento. 

Sofrimento não é só dor, fome, sede, depressão, não só isso. Refere-se a três coisas. O primeiro é o sofrimento do sofrimento – todo o sofrimento do samsara – o sofrimento da dor, do renascimento, da doença e da morte, do encontro com objetos indesejáveis e da separação dos objetos desejáveis. Não há satisfação. Então esse é o sofrimento principal, não conseguir satisfação. Depois há o sofrimento dos cinco agregados. 

O segundo tipo de sofrimento é que todos os prazeres samsáricos são da natureza do sofrimento (isto é, o sofrimento da mudança). Então compramos casas, carros, seja lá o que for, mas com o passar dos dias e dos meses essas coisas vão ficando cada vez mais chatas, cada vez menos interessantes. Ao ver outro carro ou casa queremos aquele, então o prazer se transforma em mais sofrimento de dor. 

Por exemplo, por causa do calor que sentimos quando estamos sob o sol quente, entramos na água fria, e, depois de pularmos na água, sentimos prazer. Como esse prazer surgiu? Primeiro, a sensação de frio começou pequena, o que é chamado de prazer. Depois, essa sensação muda. À medida que ficamos mais tempo na água, o sofrimento do frio aumenta gradualmente e se transforma em sofrimento de dor. Então, devido ao forte sofrimento de frio, vamos para o sol quente, iniciando outra dor, outro prazer, então um sofrimento cessa e outro sofrimento começa. Basicamente é tudo sofrimento. 

Todos os prazeres samsáricos são assim. Todos os prazeres do mundo são assim, não importa quanta educação tenhamos — até mesmo os mais aclamados cientistas. Vemos muitos cantores e atores cometendo suicídio – há tantas pessoas famosas que acham que suas vidas não têm sentido. Muitos pensam assim porque não conheceram o Dharma, não estão realizando o caminho espiritual nem para alcançar o nirvana, nem mesmo para alcançar a mera liberação do samsara. Logo, não há como alcançar a felicidade incomparável, a plena iluminação. 

Esses dois primeiros sofrimentos, o sofrimento do sofrimento e o sofrimento da mudança, a natureza samsárica do prazer, vêm do terceiro sofrimento, o sofrimento pervasivo composto. Isto é, por exemplo, os nossos agregados, que estão sob o controle do carma e das delusões, e por isso estão impregnados de sofrimento. Nossos agregados de corpo e mente estão impregnados de sofrimento, por isso vivenciamos todos os sofrimentos. 

A segunda razão é que esses agregados estão contaminados pelas sementes de pensamentos perturbadores, de modo que os agregados estão impregnados de sofrimento. A continuidade da consciência carrega impressões cármicas passadas, especialmente a não-virtude, agravando o sofrimento desta vida. Porque não praticamos o Dharma, não vemos como a natureza do samsara é sofrimento, não vemos isso. Temos alucinações, vendo isso como prazer. Não praticamos a bodhicitta nem a vacuidade, então, especialmente quando encontramos objetos indiferentes, surge a ignorância; quando encontramos objetos desejáveis, surge o apego; e quando encontramos objetos indesejáveis, surge a raiva. 

Podemos ver que esses agregados estão agravando o sofrimento, o que deixa uma marca negativa e causa renascimento e sofrimento na vida futura. Este é o sofrimento principal, por isso os budistas devem gerar o pensamento de se libertarem deste sofrimento, de cessá-lo por completo e para sempre. Esta cessação completa é a felicidade última. Não há chance de retroceder pois não há motivo para sofrer novamente. Isso é chamado de nirvana, o estado sem sofrimento, o estado de felicidade e paz. Para alcançá-lo, precisamos do antídoto do caminho correto: a sabedoria que percebe a vacuidade diretamente.  

Portanto, você pode notar em sua vida como é importante estudar e realizar a vacuidade. Em seguida, precisamos realizar a grande compaixão frente a todos os seres sencientes, tornando-nos, depois disso, bodhisattvas. Entramos no caminho Mahayana, os cinco caminhos para a iluminação, e completamos a prática do caminho paramita, cessando os obscurecimentos sutis especialmente para alcançar a mente onisciente. Podemos dessa forma completar todas as realizações e alcançar a mente onisciente capaz de libertar dos oceanos de sofrimento do samsara incontáveis seres dos infernos, fantasmas famintos, animais, seres do estado intermediário, humanos, asuras, suras. 

Desculpe, pois a carta ficou grande, mas é muito importante que você a leia e compreenda. Mesmo apenas ler!  

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Lama Zopa Rinpoche (1945-2023) foi o diretor espiritual da Fundação para a Preservação da Tradição Mahayana (FPMT), uma organização budista tibetana dedicada à transmissão da tradição e dos valores budistas Mahayana em todo o mundo através do ensino, meditação e serviço comunitário. 

Grupo de Tradutores do Centro Shiwa Lha, 2024 

Tradução: Roberta Martins Hipolito Manne 

Revisão e edição: Paula Takahashi 

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