A Nossa Necessidade de Amor – Shiwa Lha – Centro de Estudos do Budismo Tibetano

A Nossa Necessidade de Amor

S.S. o Dalai Lama

Em última instância, o motivo pelo qual o amor e a compaixão nos trazem a maior de todas as felicidades é simplesmente porque a nossa natureza os aprecia acima de tudo. A necessidade de amor repousa na base da existência humana. Essa necessidade é resultado da profunda interdependência que todos nós compartilhamos uns com os outros. Por mais capaz e habilidoso que um indivíduo possa ser, se ele ficar completamente sozinho, não conseguirá sobreviver. Por mais vigoroso e independente que alguém possa se sentir durante os períodos mais prósperos da vida, quando adoece ou quando ele é muito bebê ou muito velho, ele dependerá necessariamente do apoio dos outros.

Obviamente, a interdependência é a lei fundamental da natureza. Não só as formas mais elevadas da vida, mas muitos dos mais pequeninos insetos são seres sociais que, sem religião, lei ou educação, sobrevivem pela mútua cooperação baseada no reconhecimento inato de sua interligação. O nível mais sutil dos fenômenos materiais também é regido pela interdependência. Todos os fenômenos, desde o planeta onde habitamos até os oceanos, nuvens, florestas e flores que nos cercam, surgem na dependência de padrões sutis de energia. Sem a interação apropriada, eles se dissolvem e apodrecem.

Por ser a nossa própria existência humana tão dependente da ajuda dos outros é que a necessidade de amor repousa na própria base de nossa existência. Portanto, necessitamos de um senso de responsabilidade genuíno e uma preocupação sincera pelo bem estar dos outros.

Até mesmo quando nos engajamos em conversas cotidianas, se alguém falar com sentimentos humanos, nós apreciamos ouvir e respondemos da mesma forma; toda a conversa fica interessante, por menor importância que o tema possa ser. Por outro lado, se uma pessoa falar com frieza ou aspereza, sentimos desconforto e queremos encerrar logo a conversa. Desde o menor até o mais importante evento, o afeto e o respeito pelos outros são vitais para a nossa felicidade…

Recentemente eu conheci um grupo de cientistas da América que afirmaram que o índice de doentes mentais em seu país era bastante elevado – em torno de 12 por cento da população. Ficou claro durante a nossa conversa que a principal causa da depressão não era falta de necessidades materiais, mas uma privação de afeto das pessoas.

Eu acredito que ninguém nasce livre da necessidade de amor. E isto demonstra que, embora algumas modernas escolas de pensamento buscam alcançar isto, os seres humanos não podem ser definidos como unicamente físicos. Nenhum objeto material, por mais belo ou valioso, pode nos fazer sentir amados, porque a nossa identidade mais profunda e o verdadeiro caráter repousam na natureza subjetiva da mente.

Extraído de Compaixão e o Indivíduo, livreto distribuído gratuitamente durante a viagem do Dalai Lama à Austrália, Maio de 1991 e publicado no Informativo do Tara Institute. Traduzido para o português pela Equipe de Tradutores da FPMT Brasil, 2001.